Existe uma palavra que deveria ser sagrada dentro de qualquer instituição de segurança pública: hierarquia. Outra, não menos importante: disciplina. Sem elas, não existe comando, confiança, autoridade e respeito. É por isso que o que está acontecendo na cúpula da Polícia Federal e do Supremo Tribunal Federal não pode ser tratado apenas como uma disputa jurídica entre ministros. No dia 8 de setembro, o ministro André Mendonça determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada. No dia seguinte, o ministro Flávio Dino determinou a reintegração dos dois. Horas depois, o presidente do STF, Edson Fachin, suspendeu as duas decisões, numa tentativa de interromper o choque dentro da própria Corte. E aqui começa a pergunta: que mensagem isso transmite para o policial que está na rua? O agente que recebe uma ordem de seu superior cumpre a determinação porque acredita na cadeia de comando. Agora imagine esse mesmo profissional observando a mais alta estrutura da Justiça brasileira afastar um dirigente da Polícia Federal num dia, recolocá-lo no seguinte e, poucas horas depois, suspender as decisões. Convenhamos: não é exatamente uma aula de disciplina institucional. Estamos falando da Polícia Federal, uma das principais instituições de investigação e segurança do país, e do Supremo Tribunal Federal, a mais alta Corte do Judiciário. Quando a confusão chega ao topo, produz reflexos na base. O policial que enfrenta o crime, o delegado que conduz uma investigação e o agente que cumpre uma ordem judicial precisam acreditar que existe uma estrutura sólida acima deles. Precisam saber quem manda, quem decide e quem responde pela decisão. A discussão também interessa às polícias estaduais, guardas municipais e demais órgãos responsáveis pela proteção da população. Autoridade não se sustenta apenas pelo uniforme, mas por respeito, disciplina, hierarquia, responsabilidade e exemplo. Como cobrar disciplina de quem está na ponta se, no topo, as próprias instituições dão ao cidadão a impressão de que decisões podem ser tomadas, desfeitas e modificadas em questão de horas? Questionar não é desrespeitar a Justiça. Cobrar transparência, coerência e responsabilidade das autoridades é também defender as instituições. Se existem irregularidades, que sejam investigadas. Se existem abusos, que sejam responsabilizados. Se houve erro, que seja corrigido. Mas tudo precisa acontecer dentro das regras, com competência definida e respeito à hierarquia institucional. Quando as instituições transmitem insegurança, a conta chega à ponta: ao policial que precisa decidir em segundos, ao cidadão que espera uma resposta e à vítima que precisa confiar no Estado. E chega, principalmente, à credibilidade da segurança pública. Segurança pública não pode ser cabo de guerra, depender de quem conseguiu dar a última ordem ou viver de decisões contraditórias. No fim, a pergunta é simples: se a disciplina começa no topo, que exemplo estamos dando para quem está na base? A população merece instituições que não apenas tenham poder para mandar, mas também tenham credibilidade para serem obedecidas.
OH GLÓRIA PERDE A PACIÊNCIA: “BAGRE ENSABOADO”, TESTA DE FERRO E UM GOVERNO SEM RUMO
Desabafo na tribuna expõe o desgaste entre Executivo e Legislativo, enquanto obras paradas e ruas deterioradas aumentam a cobrança da população.



