Há semanas em que o jornalista procura a notícia. E há semanas em que ela bate à porta da redação e pergunta: até onde chegamos? É essa a sensação diante dos acontecimentos que envolvem o Supremo Tribunal Federal. O Brasil assiste a inquéritos, decisões conflitantes, acusações, documentos públicos e uma disputa cada vez mais evidente dentro da própria Corte, que deveria representar uma referência de estabilidade jurídica. O problema não é investigar. Investigar é obrigação. Se existem suspeitas, que sejam apuradas. Se existem irregularidades, que sejam esclarecidas. Se não existem, que isso também fique demonstrado. O que preocupa é a sensação de que a própria Justiça passou a ocupar o banco dos questionados. Nos últimos dias, procedimentos relacionados ao caso Banco Master, documentos envolvendo Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes e questionamentos sobre contrato entre o banco e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, passaram ao centro do debate. Alexandre de Moraes pediu ao presidente do STF, Edson Fachin, análise de supostas irregularidades na atuação de André Mendonça. Fachin determinou esclarecimentos de ministros, da PGR e da Polícia Federal. Depois vieram decisões conflitantes envolvendo o comando da PF. E quando 13 ex-ministros do próprio Supremo pedem apuração rigorosa e classificam o momento como a “mais aguda crise” da história da Corte, talvez seja hora de compreender a dimensão do problema. O brasileiro comum não quer saber qual ministro venceu a disputa interna. Quer saber: podemos confiar na Justiça? Ministro do Supremo deve estar acima de qualquer suspeita ou, quando ela surgir, ser o primeiro interessado em esclarecê-la com transparência. No caso envolvendo Fábio Faria, mensagens obtidas pela PF apontaram que ele teria intermediado contatos entre Vorcaro e Moraes. Faria nega envolvimento com o escritório da esposa do ministro. Investigação não é condenação. Suspeita não é culpa. Denúncia não é sentença. A Folha de Santa Isabel não pretende transformar suspeitas em condenações. Quem condena é a Justiça, depois do devido processo legal. Mas jornalismo também não pode fingir que não está vendo. A Constituição de 1988 estabeleceu princípios fundamentais: independência dos Poderes, devido processo legal, contraditório, ampla defesa e imparcialidade. Quanto maior o poder, maior deve ser a responsabilidade. Quanto maior a autoridade, maior deve ser a transparência. Não basta dizer que está tudo dentro da lei. É preciso que a sociedade consiga compreender, acompanhar e confiar. Porque Justiça que perde credibilidade coloca em risco a confiança da população nas instituições. Talvez esta seja a hora de perguntar: quem fiscaliza quem fiscaliza? Não se trata de atacar o Supremo. Trata-se justamente de defendê-lo. O STF é importante demais para permanecer mergulhado em suspeitas, disputas internas e crises de credibilidade. Se há culpados, que sejam responsabilizados. Se há inocentes, que sejam absolvidos. Se houve erros, que sejam reconhecidos. E, se tudo estiver correto, que a transparência seja suficiente para convencer até aqueles que hoje desconfiam. Porque, no final das contas, existe uma autoridade que nenhum ministro, político, empresário ou jornalista consegue ignorar: a opinião de um povo que ainda espera acreditar na Justiça.